Um dia assisti a um vídeo de Fátima falando sobre suas quedas, seus ossos quebrados, suas lágrimas. Ela, mulher de imagem forte, comunicadora potente, acostumada a sustentar o mundo com a própria voz. Ver suas lágrimas me tocou profundamente. Havia ali algo que eu reverencio: a descida ao chão, o cair em si.
Escrevo a partir de mim. Quando criança, ouvia que eu era sensível demais. Chorava quando me sentia repreendida, rejeitada ou comparada à minha irmã mais velha. “Sensível demais” soava como fraqueza, quase um aviso de que eu talvez não sobrevivesse ao mundo. Mas coragem nunca me faltou. Subia muros, inventava aventuras, ocupava a rua com o corpo inteiro. O que doía não era o mundo em si — era o medo de não ser amada.
Demorei a entender que minha sensibilidade não era fragilidade. Era força. Foi ela que me permitiu ser atriz, criar empatia, habitar personagens com verdade. Mais tarde, estudando Comunicação Não Violenta, compreendi que sentimentos são sinais: apontam necessidades atendidas ou não. Quando algo em mim dói, há um valor pedindo cuidado. Quando me sinto plena, é porque estou honrando o que importa.
Hoje sei me perguntar: o que estou sentindo? Que pensamentos estão me intoxicando? Do que preciso agora? Não tenho mais mãe para vir ao quarto me consolar. Preciso cuidar de mim. Permitir o abraço do marido, do filho, das amigas. Reconhecer necessidades não é fraqueza — é preservação da vida.
Ao ler Fátima dizer que nunca se permitiu ser cuidada, que ser forte virou um vício, percebi o quanto a sociedade nos empurra para cima: subir, vencer, performar, sustentar. Não há problema em desejar sucesso. O problema é quando a ascensão custa o corpo. Quando o cuidado é tão negligenciado que só a queda nos faz parar.
E é aqui que faço meu elogio à queda.
Se não escutamos o sussurro interno, o corpo grita. Às vezes, quebra. A gravidade não é inimiga; é o que nos mantém na Terra. Ela nos chama à horizontalidade, ao chão que acolhe como mãe. Cair pode ser um gesto amoroso da vida dizendo: desça. Descanse. Receba cuidado.
Não romantizo a dor dos ossos partidos nem o medo da perda de movimento. Mas celebro a possibilidade de transformar a ruptura em sabedoria. Cair não como desgraça, mas como um cair com graça — um retorno a si.
Talvez possamos aprender a descer antes de despencar. A deitar antes de quebrar. A pedir cuidado antes de adoecer. A vulnerabilidade não nos diminui; nos humaniza.
Estar no mundo também é permitir-se tocar o chão. E confiar que ele sustenta.
Entre arte, respiração e escuta, Fera Carvalho Leite constrói caminhos para o desenvolvimento da presença, da regulação emocional e da expressão autêntica. Atriz, diretora e criadora com mais de 30 anos de trajetória no teatro, dança, cinema, televisão, locução, dublagem e condução de eventos. Sua formação integra arte e ciência: é graduada em Biologia, mestre em Artes Cênicas e especialista em Pedagogias do Corpo e da Saúde e Neurociência da Respiração, além de facilitadora de Comunicação Não Violenta e Breathwork. Gestora do Espaço Livre – Arte Corpo Mente, em Porto Alegre, desenvolve o método FERA — Fluxo entre Empatia, Respiração e Autenticidade, em atendimentos individuais, grupos, oficinas e palestras, promovendo equilíbrio físico e emocional, redução do estresse e ampliação da criatividade.