Maternidade atípica: corpo em risco, alma em travessia.

Compartilhe essa postagem:

Maternidade atípica

No meu diário, sempre escrevi que sonhava ser mãe de uma menina. Meu mundo rosa era o que eu queria viver, tudo aquilo que nunca tive, imaginei projetar na minha filha. Sou mãe de dois homens, mas a Aymê chegou quando eu já não me reconhecia mais, depois de viver uma relação abusiva que me sugou a alma. Aos 37 anos descubro a gestação. Medo da idade. Medo do novo. Medo de mim. Mas ela tão pequena foi me devolvendo vida a cada mexida, como um sopro de esperança.

Aos 5 meses, descubro que meu sonho tinha nome: Aymê, “Amada”, força, emoção e intuição! Comecei seu enxoval com o coração cheio de afeto e amorosidade. Ela nasceu prematura, aos 8 meses, no dia 23 de junho de 2018, dois dias antes do meu aniversário. Eu mal dormia, só admirando aquela menina tão esperada, tão minha. Crescia saudável, inteligente, mas com peculiaridades que eu ainda não entendia.

Veio a seletividade alimentar, o choro intenso, a dificuldade com frustrações, o sono inquieto, o comportamento repetitivo, a sensibilidade a barulhos e luzes, as crises de raiva e os momentos em que só eu conseguia acalmá-la. A rotina dela, era dela — rígida, exata, imutável. Quando a escola começou a me chamar, quando a força dela crescia junto com seu sofrimento, quando eu já não conseguia trabalhar sem ser interrompida para buscá-la, eu entendi: eu precisava parar tudo. Me tranquei com ela em casa, cansada de olhares, julgamentos e opiniões de quem não vive nossa realidade. Investi minha rescisão toda em terapias. Vieram psicólogos, neuropediatra e, enfim, o laudo: Transtorno do espectro autista (TEA) nível 1 + Transtorno Opositivo Desafiador (TOD).

Foi alívio.
Foi desespero.
Foi renascimento.

Nasceu ali minha maternidade atípica solo. Sem rede de apoio. Sem reserva financeira. Mas cheia de um amor que levanta, mesmo quando todo o resto derruba. Aprendi a estudar, observar, decifrar, proteger. Meu mundo virou lugar de luta e acolhimento, só eu e ela, de mãos dadas.

Ser mãe atípica não é título. É exaustão que ninguém vê. É encaixar minha vida nos intervalos do cuidado. É chorar escondido e sorrir para encorajar. É ser julgada por quem não conhece nossas batalhas. É lutar por direitos, inclusão e respeito. Não sou guerreira por escolha. Nem heroína. Eu sou MÃE. Mãe que ama, cai, levanta e se reinventa todos os dias por ela.

E mesmo que o meu “mundo rosa” não seja como imaginei, a conexão entre nós é única, profunda e verdadeira. Minha maternidade atípica, nada é linear. Tem dias que começo forte e término no limite, antecipo crises, interpreto dores que não são ditas, meço a energia do ambiente. O sensorial aqui é bússola, é alerta é sinal de cuidado. Entre rigidez cognitiva, hiper foco e rotinas anotações em murais ajudam ela visualizando e motiva! Entre rótulos olhares tortos e falta de compreensão, eu me refaço como posso e sigo a força que nasce da dor, da Entrega, da vontade de garantir dignidade e mundo possível para quem depende totalmente de mim, essa é minha verdade dura, profunda, sensorial e mesmo quando mundo não entende eu seguirei caminhando ao seu lado filha redescobrindo e respeitando seu mundo Rosa e agora Azul.

Sou Taís. Sou mãe atípica. Sou resistência. E Aymê é meu amor que floresce na tempestade.

 

POR TAÍS FELIZ

VEJA TAMBÉM
Criadora do perfil Robs The Cat explica como o humor a salvou de perdas e a jogou com força como (...)

Se a roupa não nos define totalmente, é por meio dela que expomos sentimentos, estados de espírito e intenções. A (...)

Quem é a empresária gaúcha que criou as primeiras calcinhas menstruais 100% nacionais Ao fazer um mergulho profundo para se (...)

Quando a cultura, a arte e a educação blindam a vida contra a mediocridade dos preconceitos. Conheça a história de (...)

Mulher, jornalista, política, militante, ex-deputada federal e estadual, candidata à vice-presidência do Brasil em 2018, mãe, madrasta e esposa. Essas (...)

A gente sabe que ser mulher não é fácil. Não foi aos 13, não é aos 23, não será aos (...)

Alguns livros nos informam. Outros nos despertam. Há ainda aqueles, mais raros, que nos devolvem algo que nem sabíamos ter (...)

plugins premium WordPress