Lá vem ela trazendo a perspectiva de gênero — de novo. Sim, de novo, mais uma vez, quantas forem necessárias para que tornemos a vida das mulheres mais justa. E, antes que alguém reclame, tudo aqui é calcado em dados e experiências humanas, assim como este texto que não foi escrito por Inteligência Artificial, apesar do uso do travessão que, possivelmente, será apontado por ferramentas de detecção como ‘palavras produzidas por IA’.
Bem, vamos ao motivo deste texto: manter a discussão sobre o papel das mulheres no mundo. Escolhi o livro “Mulheres Invisíveis: o viés dos dados em um mundo feito para homens”, da pesquisadora inglesa Caroline Criado Perez. O jornal Times chegou a escrever que seria a ‘Simone de Beauvoir com dados’. Quando vi essa chamada na capa achei um tanto clickbait, mas com menos de 10 páginas lidas ficou claro que o livro é profundo como a Simone.
Distribuído em mais de 300 páginas, “Mulheres Invisíveis” transforma em livro exemplos reais que expõem a lacuna de dados de gênero.
É a aplicabilidade na prática da expressão “o mundo é feito por homens e para homens”. Do estudo de doenças ao design de smartphones que são muito grandes para mãos femininas, até coletes a prova de balas feitos para corpos masculinos. Ou seja, além de estarmos à margem das decisões, nossas vidas são mais expostas a riscos.
Trazendo a temática para o mercado da comunicação, além da problemática individualizada, com salários menores, assédios, menos posições de lideranças, temos a falta de pluralidade nas estratégias que pensamos/entregamos para os nossos clientes. E isso já não é mais opcional. Dados do Sebrae indicam que cada 10% de aumento na diversidade de gênero pode aumentar a produtividade em quase 5%. A Organização Internacional do Trabalho aponta que 60% das empresas que implementaram iniciativas de diversidade e inclusão registraram aumento de lucros. Só para trazer alguns dados extras ao texto.
Voltando ao Mulheres invisíveis, escrito em 2019 e traduzido para o português em 2022. Permitam-me trazer uma questão pessoal para ilustrar um ponto que Caroline Criado Perez apresenta. Aos 12 anos fui diagnosticada com Endometriose, uma doença que afeta, segundo a OMS, 190 milhões de mulheres em todo o mundo e mais de 7 milhões no Brasil. Uma doença ginecológica na qual o tecido que reveste o útero cresce fora do órgão e pode se espalhar pelos ovários, trompas, intestino, bexiga e outras partes do corpo, causando dor crônica, cólicas menstruais intensas, dor durante as relações sexuais e infertilidade. Segundo a Associação Brasileira de Endometriose, acomete entre 10% e 15% das mulheres em idade reprodutiva, sendo que 30% delas têm chances de ficarem estéreis. O ponto central da escritora: a endometriose é uma “doença invisível” não por ser rara, mas porque a dor que ela causa é frequentemente descartada como “normal” ou “frescura”. Caroline vai além e critica a falta de pesquisa e atenção para a condição, que leva de 7 a 10 anos para ser diagnosticada. Volto para a minha história:
Cheguei a ouvir de um médico que eu estava sendo ‘fresca’ quando desmaiei de dor. Eu tinha 14 anos.
Caroline aponta que a endometriose recebe significativamente menos financiamento e atenção de pesquisa do que outras doenças similares. Essa falta de investimento contribui para menos opções de tratamento e para a ignorância sobre a doença, tanto por parte dos profissionais de saúde quanto do público. E as mulheres que sigam com dor.
Este é um dos tantos casos que a autora traz para pensarmos mais profundamente e sermos mais críticos no nosso dia a dia. Separei mais alguns:
1) Segurança e design de veículos
Mulheres têm 47% mais probabilidade de sofrerem ferimentos graves em um acidente de carro do que homens, e 17% mais probabilidade de morrerem.
Explicação: historicamente, os testes de segurança veicular e o design dos cintos de segurança foram feitos utilizando manequins de teste baseados no “homem médio”. Apenas em 2011, nos EUA, um manequim de tamanho feminino foi colocado no banco do passageiro – veja bem, do passageiro e não do motorista. A maioria dos testes ainda não considera as diferenças fisiológicas e biomecânicas do corpo feminino.
2) Saúde e pesquisa médica
Mulheres com os mesmos sintomas de um ataque cardíaco que homens têm 50% mais probabilidade de serem diagnosticadas incorretamente.
Explicação: os sintomas clássicos de infarto foram definidos com base em estudos clínicos majoritariamente realizados em homens brancos. Sintomas femininos, como náuseas, fadiga e dor nas costas, eram frequentemente ignorados ou atribuídos a outras causas. Note que são homens brancos, em clara intersecção de gênero e raça.
3) Obras de engenharia e planejamento urbano
Em certas cidades da Suécia,o planejamento para a remoção da neve das ruas era focado nas vias principais para carros, que são mais usadas por homens em suas rotinas de trabalho. As calçadas e ciclovias, mais usadas por mulheres, eram limpas por último.
Consequência: essa priorização levou a um aumento de acidentes e lesões (fraturas, torções) entre pedestres, majoritariamente mulheres, que precisavam caminhar por vias perigosas. Quando a cidade mudou a ordem de remoção da neve, priorizando calçadas, o número de acidentes caiu drasticamente.
4) Trabalho e segurança
Coletes à prova de balas para a polícia e o exército são projetados para o corpo masculino, com pouca consideração pelas diferenças anatômicas femininas.
Consequência: isso pode resultar em coletes que não se ajustam corretamente, oferecendo menos proteção para as mulheres e, em alguns casos, dificultando a movimentação e a respiração.
5) Design de banheiros públicos
Mulheres demoram cerca de 1,4 vez mais do que homens para usar o banheiro, mas o espaço público para banheiros femininos não é proporcionalmente maior.
Consequência: a falta de dados sobre o uso do banheiro por mulheres (que inclui o tempo para colocar absorventes, ajudar crianças e idosos) leva a longas filas, demonstrando uma falha no planejamento de espaços públicos que afeta a todos.
6) Projetos e produtos
A temperatura média dos escritórios é baseada no metabolismo de um homem de 40 anos e 70 kg.
Explicação: o design de produtos e ambientes cotidianos não considera as diferenças biológicas entre os sexos. Isso resulta em desconforto e perigos para as mulheres, desde escritórios muito frios até veículos menos seguros para elas em caso de acidentes.
7) O trabalho não-remunerado e a economia do cuidado
As mulheres realizam cerca de 75% de todo o trabalho não-remunerado (tarefas domésticas e cuidado de outros).
Explicação: o trabalho de cuidado, crucial para a sociedade, não é contabilizado nas estatísticas econômicas. Essa invisibilidade impede a formulação de políticas públicas que reconheçam e apoiem a contribuição das mulheres, perpetuando o desequilíbrio de responsabilidades.
A rotina corrida em que vivemos tende a tirar o foco em discussões como estas que o livro apresenta. E um dos principais argumentos para esta manutenção é o ‘sempre foi feito assim’. E como as decisões estão (ainda) mais nas mãos dos homens, o sempre foi feito assim precisa ser destituído do seu trono. Estamos fazendo isso com dados e com o convite para que mais HUMANOS ajudem a mudar essa realidade.
Por Alexandra Zanela, Cofundadora da Padrinho Conteúdo e Assessoria.