A maternidade real hoje não cabe mais em um único modelo. E talvez nunca tenha cabido. No encontro entre Manuela Bordasch e Gabriella Bordasch, irmãs, mães e empresárias, o que aparece não é uma resposta, é um mosaico de experiências que revela o quanto ser mãe hoje é atravessado por contexto, escolhas e, sobretudo, contradições.
Gabriella construiu carreira no jornalismo, passou por grandes veículos e hoje lidera o Da Terra Estúdio. Foi mãe em um momento de construção profissional, sem manual e sem pausa possível. Fala com honestidade sobre o impacto desse início: a tentativa de manter o controle, a dificuldade de desacelerar e, principalmente, o momento em que percebe que a maternidade exige uma ruptura interna. “Baixar a bolinha”, como ela mesma define. Entender que não se é mais o centro da própria vida e que tudo bem.
Manuela percorreu outro caminho. Fundadora do Steal The Look, reconhecida internacionalmente como uma das mulheres mais influentes da América Latina no empreendedorismo digital, chegou à maternidade em um cenário de maior estabilidade, planejou, estruturou, organizou. Ainda assim, foi surpreendida. Pela intensidade, pelo julgamento e pela pressão silenciosa de fazer tudo “certo”. Em um mundo onde cada escolha materna parece passível de crítica, ela expõe o peso de gestar sob o olhar público.
Entre as duas, há diferenças claras. Uma maternidade mais improvisada, outra mais planejada. Uma construída no caos, outra cercada de estratégia. Mas há também um ponto de encontro inevitável: nenhuma escapa da experiência de se ver transformada.
O episódio revela algo que atravessa gerações. Se antes faltava informação, hoje ela sobra. E, paradoxalmente, isso não trouxe mais segurança. Trouxe dúvida, excesso e a sensação constante de que sempre há algo a aprender, corrigir ou melhorar. Nesse cenário, a intuição, tantas vezes mencionada, volta como uma espécie de resistência. Olhar, presença, vínculo, o básico que nenhuma tecnologia substitui.
Mas talvez o ponto mais potente da conversa esteja onde menos se romantiza: no cuidado com quem cuida. Em meio à sobrecarga física e emocional, surge uma constatação incômoda e verdadeira, muitas mulheres não sabem o que é se sentir cuidadas. E, quando sabem, frequentemente passa por algo ainda tratado como tabu: dinheiro.
Não como luxo, mas como possibilidade. De escolha, de descanso, de apoio, de não depender, de poder decidir quando, como e com quem viver a própria maternidade.
No fim, o que fica não é um modelo a seguir, mas um convite à honestidade. A maternidade não é um lugar de perfeição. É um território de improviso, de tentativa e erro, de construção diária. E talvez a maior maturidade esteja justamente em abandonar a ideia de dar conta de tudo, para, enfim, dar conta do que importa.
Assista ao episódio completo aqui: https://youtu.be/zLGpqeV5bYM