Quando os homens falam de mães, o que aparece não é apenas sensibilidade. O que aparece, com força, é o tamanho da ausência histórica e, ao mesmo tempo, a potência de uma presença que começa a se transformar. No novo episódio do FalaCast, “A Mãe do Meu Filho”, dois pais são convidados a olhar para a maternidade não a partir do protagonismo, mas do lugar de quem está ao lado. E esse deslocamento muda tudo.
De um lado está Guto Rocha, empresário, investidor e conselheiro estratégico, com atuação nacional e internacional. Pai de duas crianças pequenas e à espera do terceiro filho, ele vive uma paternidade atravessada pelo inesperado. Do outro, Ney Caminha, advogado com trajetória consolidada que também atua como instrutor de yoga terapêutica, pai de uma jovem de 22 anos. Dois homens com histórias, idades e experiências muito diferentes, mas que se encontram em um ponto essencial: a presença.
Logo no início, uma ideia simples reposiciona a conversa. Pai não é quem ajuda. Pai é quem divide. Parece pouco, mas não é. Porque essa diferença revela o quanto, por décadas, o cuidado foi entendido como responsabilidade feminina, enquanto aos homens cabia o papel de prover. Quando esse eixo se altera, o impacto não é só dentro de casa, é social.
Ney relembra uma paternidade construída no cotidiano, no banho, na troca de fraldas, na rotina compartilhada. Coisas que ele sempre fez e que só mais tarde percebeu que não eram regra, mas exceção. Mesmo após a separação da mãe de sua filha, ele manteve uma relação próxima e presente, sustentada pelo diálogo e pelo compromisso de seguir sendo pai todos os dias.
Já Guto entra na paternidade atravessado por uma experiência limite. Seu primeiro filho nasce e não chora. O silêncio na sala de parto é seguido por uma internação imediata na UTI e, depois, por um diagnóstico raro. O que era expectativa vira incerteza. O que era plano vira enfrentamento. Nesse processo, ele também reconhece algo que muitas vezes não é dito: a maternidade da mulher é impactada de forma profunda. Aquilo que foi sonhado para a chegada de um filho é, em alguma medida, interrompido. Ainda assim, ela acontece.
Ao longo da conversa, um dado surge como um choque de realidade. No Brasil, uma parcela significativa de crianças não tem o nome do pai no documento. E mesmo quando tem, muitas vezes a ausência acontece dentro da própria casa. É o pai que não participa, que não se envolve, que delega. Por isso, o episódio ultrapassa as histórias individuais e revela um cenário coletivo que ainda precisa ser enfrentado.
Diante de experiências tão intensas, o que sustenta esses homens não é perfeição. É escolha. Escolha de estar, de assumir responsabilidade, de não se ausentar diante da complexidade. Entre medo, cansaço e recomeços, surge também uma mudança de perspectiva. Não se trata apenas de enfrentar problemas, mas de entender o sentido do que está sendo vivido.
No fim, fica uma sensação incômoda e necessária. O que esses homens apresentam não deveria ser exceção. É o mínimo. E talvez seja justamente aí que começa a transformação. Menos sobre elogiar o que já deveria existir e mais sobre questionar o que ainda falta.
Porque quando o pai realmente ocupa o seu lugar, não é só a dinâmica da casa que muda. É a vida das mulheres que se reorganiza. E, com ela, a possibilidade de uma sociedade mais justa também começa a tomar forma.
Assista ao episódio completo clicando aqui: https://youtu.be/ML8Uq7FJvQQ