O Rei do Lar

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Magali Schmitt

— Bom dia, seja bem-vindo!

— Bom dia.

— Você está prestes a nascer de novo e o motivo desse encontro é para repassar alguns detalhes. Na verdade, como homem você não tem que se preocupar com quase nada. Sempre haverá uma mulher pensando por você. Não é maravilhoso?

— Eu não preciso de alguém que pense por mim.

— Como não? Claro que precisa. Você apenas não sabe.

— Mas eu tenho condições de me cuidar.

— Nada! Já está decidido. É para sua proteção.

— Minha proteção?

Da infância até seu último dia alguém decidirá tudo o que importa. Você só precisa se ocupar com a casa. Economia, negócios, esses assuntos mais chatos, são com as mulheres.

— Mas o que é isso? Vocês esperam que eu concorde?

— Esperamos, claro. Temos mulheres em todas as posições, gerando riquezas, estudando e dando duro pelo desenvolvimento e para garantir o seu futuro. É só crescer e se tornar um bom marido.

— Não estou acreditando.

— É melhor do que parece. Case bem, arranje uma mulher para cuidar de você e gerem bons herdeiros. É só não questionar nem dizer não na hora h: esse detalhe é bem importante. Ah, já ia esquecendo, você também vai cuidar dos seus sogros e dos seus pais. Mas isso só mais tarde.

— E quanto eu vou ganhar por isso?

— Não, você não entendeu. Isso não é trabalho, é uma ocupação para os seus dias. Quem não ia querer uma vida assim, molezinha?

— Molezinha? E é só isso?

— Na verdade tem outras coisas, umas bobagens.

— Bobagens?

— É, uns detalhes.

— Tipo?

— Como eu disse, lá fora tudo será resolvido. Mas dentro de casa é com você. O rei do lar. Que responsabilidade, hein?

— Que coisas?

— Nada demais.

— Que coisas?

— Calma, que histeria é essa? Tá naqueles dias?

— Eu tenho o direito de saber.

— Devo lembrá-lo que não é inteligente questionar a decisão de uma mulher. E falando em direitos…

— O que?

— Já que insiste em saber, você não poderá votar, fazer faculdade, dirigir, abrir conta em banco.

— Não pode ser verdade!

— Não é incrível ter alguém para decidir tudo isso por você?

— Vocês enlouqueceram?

Calma, quer um chazinho? Não fica nervoso.

— Eu não quero chá, coisa nenhuma. Quero entender que porcaria é essa que pretendem fazer com a minha vida. Mais um pouco vão dizer que eu não posso jogar futebol!

— Na verdade, não pode.

— É um pesadelo? Quero falar com o seu supervisor, o homem que manda aqui.

— Calma! Preciso avisar que costumamos internar homens histéricos, questionadores e cheios de atitude.

— Não me mande ficar calmo. O que vocês esperam de mim, afinal?

— Que bom que você perguntou. Esteja sempre de bom-humor e fique magro. Nada de barriga e bunda mole. Sem desleixo, hein? Sempre maquiado e feliz. Tempo não vai faltar. Não use roupas provocativas, fale baixo, obedeça. Lembre-se: atrás de uma grande mulher sempre tem um grande homem.

— Meu Deus! Daqui a pouco vai dizer que não posso nem me separar.

De fato, não pode. Ou melhor, até pode, mas não vai poder mais se casar depois.

— Agora vai dizer que a mulher pode tudo?

Querido, a mulher é livre. E nós estamos falando de você. Ela pode ir e vir a hora que quiser, sem dar satisfações. Inclusive pode colocar você no seu lugar, quando não estiver…

— No meu lugar? Mas o que é isso?

É a sua vida a partir de agora.

— Mas alguém precisa fazer alguma coisa!

— O que você sugere?

 

Por Magali Schmitt, jornalista e escritora. Autora de “40 na Cabeça” (AGE), “Cabeça de árvore e outras histórias sem pé nem cabeça” (Caravana), “Meu vampiro predileto” (Amazon), “Adeus, Ana” (Amazon) e “Que notícias me dão de você?” (Amazon).

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