— Bom dia, seja bem-vindo!
— Bom dia.
— Você está prestes a nascer de novo e o motivo desse encontro é para repassar alguns detalhes. Na verdade, como homem você não tem que se preocupar com quase nada. Sempre haverá uma mulher pensando por você. Não é maravilhoso?
— Eu não preciso de alguém que pense por mim.
— Como não? Claro que precisa. Você apenas não sabe.
— Mas eu tenho condições de me cuidar.
— Nada! Já está decidido. É para sua proteção.
— Minha proteção?
— Da infância até seu último dia alguém decidirá tudo o que importa. Você só precisa se ocupar com a casa. Economia, negócios, esses assuntos mais chatos, são com as mulheres.
— Mas o que é isso? Vocês esperam que eu concorde?
— Esperamos, claro. Temos mulheres em todas as posições, gerando riquezas, estudando e dando duro pelo desenvolvimento e para garantir o seu futuro. É só crescer e se tornar um bom marido.
— Não estou acreditando.
— É melhor do que parece. Case bem, arranje uma mulher para cuidar de você e gerem bons herdeiros. É só não questionar nem dizer não na hora h: esse detalhe é bem importante. Ah, já ia esquecendo, você também vai cuidar dos seus sogros e dos seus pais. Mas isso só mais tarde.
— E quanto eu vou ganhar por isso?
— Não, você não entendeu. Isso não é trabalho, é uma ocupação para os seus dias. Quem não ia querer uma vida assim, molezinha?
— Molezinha? E é só isso?
— Na verdade tem outras coisas, umas bobagens.
— Bobagens?
— É, uns detalhes.
— Tipo?
— Como eu disse, lá fora tudo será resolvido. Mas dentro de casa é com você. O rei do lar. Que responsabilidade, hein?
— Que coisas?
— Nada demais.
— Que coisas?
— Calma, que histeria é essa? Tá naqueles dias?
— Eu tenho o direito de saber.
— Devo lembrá-lo que não é inteligente questionar a decisão de uma mulher. E falando em direitos…
— O que?
— Já que insiste em saber, você não poderá votar, fazer faculdade, dirigir, abrir conta em banco.
— Não pode ser verdade!
— Não é incrível ter alguém para decidir tudo isso por você?
— Vocês enlouqueceram?
— Calma, quer um chazinho? Não fica nervoso.
— Eu não quero chá, coisa nenhuma. Quero entender que porcaria é essa que pretendem fazer com a minha vida. Mais um pouco vão dizer que eu não posso jogar futebol!
— Na verdade, não pode.
— É um pesadelo? Quero falar com o seu supervisor, o homem que manda aqui.
— Calma! Preciso avisar que costumamos internar homens histéricos, questionadores e cheios de atitude.
— Não me mande ficar calmo. O que vocês esperam de mim, afinal?
— Que bom que você perguntou. Esteja sempre de bom-humor e fique magro. Nada de barriga e bunda mole. Sem desleixo, hein? Sempre maquiado e feliz. Tempo não vai faltar. Não use roupas provocativas, fale baixo, obedeça. Lembre-se: atrás de uma grande mulher sempre tem um grande homem.
— Meu Deus! Daqui a pouco vai dizer que não posso nem me separar.
— De fato, não pode. Ou melhor, até pode, mas não vai poder mais se casar depois.
— Agora vai dizer que a mulher pode tudo?
— Querido, a mulher é livre. E nós estamos falando de você. Ela pode ir e vir a hora que quiser, sem dar satisfações. Inclusive pode colocar você no seu lugar, quando não estiver…
— No meu lugar? Mas o que é isso?
— É a sua vida a partir de agora.
— Mas alguém precisa fazer alguma coisa!
— O que você sugere?
Por Magali Schmitt, jornalista e escritora. Autora de “40 na Cabeça” (AGE), “Cabeça de árvore e outras histórias sem pé nem cabeça” (Caravana), “Meu vampiro predileto” (Amazon), “Adeus, Ana” (Amazon) e “Que notícias me dão de você?” (Amazon).