Há mães que educam os filhos para o mundo. E há mães que criam filhos capazes de olhar o mundo com delicadeza. Talvez seja isso que mais impressione no encontro entre Cláudia Tajes e seu filho Theo Tajes no novo episódio da Fala Feminina. Não é apenas uma conversa entre mãe e filho. É um retrato raro de afeto, inteligência, humor e parceria criativa atravessando décadas.
A série especial sobre maternidade parte de uma pergunta fundamental: como as mulheres mudaram nas últimas décadas? E, no meio dessa reflexão sobre cuidado, trabalho e afetos, Claudia e Theo surgem como um exemplo de maternidade que escapa completamente dos modelos tradicionais.
Claudia Tajes é publicitária, roteirista, escritora e uma das cronistas mais afiadas do Brasil. Dona de um humor sofisticado e absolutamente observador, ela construiu uma carreira transformando pequenas tragédias cotidianas em literatura inteligente. Seu livro Dez (Quase) Amores virou referência justamente por isso: Claudia consegue fazer rir enquanto desmonta comportamentos, relações e vaidades humanas.
Theo cresceu dentro desse universo. Filho de uma mãe escritora e de um pai publicitário, foi criado entre sets de filmagem, cinemas, livros e conversas sobre arte. Ainda muito pequeno já frequentava sessões de filmes complexos demais para sua idade, como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Amores Brutos. O que poderia parecer exagero acabou se tornando formação emocional e estética. Theo hoje trabalha com audiovisual, cinema e fotografia, carregando no olhar um pouco da palavra da mãe e da imagem do pai.
Mas o episódio não emociona apenas pela trajetória profissional dos dois. O que atravessa a conversa é outra coisa. É a intimidade construída na convivência. O jeito como Theo fala da mãe impressiona. Ele não descreve Claudia pelo sucesso ou pelos livros publicados. O que mais admira nela é o fato de nunca ter deixado faltar cuidado para ninguém. “Sempre pensa nos outros, sempre cuida de todo mundo”, diz ele.
E talvez exista algo profundamente feminino nisso. Mulheres que passaram décadas tentando equilibrar maternidade, trabalho, desejo de realização pessoal e sobrevivência emocional. Claudia pertence a uma geração que começou a romper modelos antigos. Foi mãe aos 29 anos, separou-se quando Theo ainda era pequeno, mudou de cidade por trabalho, escreveu para televisão, viveu entre Porto Alegre e Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, construiu um filho afetivamente disponível, sensível e atento ao mundo.
Existe também uma beleza discreta na forma como os dois transformaram a relação em parceria artística. Durante a pandemia, começaram a criar pequenos filmes juntos. Um curta experimental de apenas um minuto acabou percorrendo festivais internacionais e sendo exibido até em museus na Holanda. Desde então, mãe e filho passaram a dividir roteiros, ideias e projetos sobre memória, vulnerabilidade e questões sociais.
O episódio fala sobre maternidade, claro. Mas fala também sobre herança emocional. Sobre aquilo que uma mãe deixa num filho sem perceber. Não apenas educação ou proteção. Mas repertório, humor, curiosidade, humanidade.
No fim, entre lembranças de viagens, vulcões subidos no deserto do Atacama, filmes vistos cedo demais e manhãs silenciosas de infância ao lado da mãe escrevendo no computador, Theo resume talvez o sentimento mais bonito do episódio: a memória de uma infância simples, mas cheia de presença.
Num tempo em que tantas relações familiares parecem atravessadas por ruídos, pressa e distância, Claudia e Theo lembram que existem vínculos construídos não apenas pelo amor, mas pela admiração mútua. E talvez seja justamente isso que toda mãe deseja no fim das contas: que o filho cresça sem deixar de enxergá-la inteira.