Existe um tipo de machismo que não levanta a voz, não aparece em manchetes, não dá escândalo e não se assume como agressor. Ele se senta ao nosso lado, educado, cordial, “bem-intencionado”. É justamente esse o problema. É o machismo que aperta o cinto da nossa liberdade um furo por vez, tão devagar que quase acreditamos que fomos nós mesmas que apertamos.
E fomos. Mas não sozinhas.
Esse tipo de machismo também é perigoso, pois não nos ataca, mas ensina a nos encolher. Estou falando dos machismos invisíveis, aqueles que operam nos bastidores do nosso cotidiano, nos pequenos gestos que normalizamos ao ponto de nem questionar. E que, por isso, são tão ardilosos.
Ele aparece quando o garçom entrega a taça ao homem para provar o vinho, ainda que a mulher da mesa seja quem entende da bebida. Surge quando uma comissária é advertida que “não pode usar óculos colorido” enquanto seus colegas homens exibem tatuagens inteiras sem qualquer repreensão. Além disso, se infiltra em pensamentos que parecem inocentes, mas moldam trajetórias inteiras, como a frases ditas a si mesmo: “Melhor não postar isso”; “Essa roupa chama atenção demais”; “Discordar agora vai pegar mal”.
Isso não é sensibilidade excessiva. É condicionamento social e posso provar.
Relatórios recentes da Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, apontam que mulheres apresentam níveis significativamente maiores de autocensura e medo de julgamento social do que homens. E publicações da Harvard Business Review confirmam que mulheres têm suas ideias interrompidas 2 a 3 vezes mais e recebem crítica 76% mais focada em personalidade do que em competência.
Ou seja, não é impressão e nem mimimi. É estrutura. E aqui não se trata de culpar homens. Trata-se de reconhecer que práticas machistas se tornaram tão normalizadas que muitas vezes não sabemos mais identificá-las e, pior, passamos a reproduzi-las.
Durante séculos, o chamado “decoro feminino” determinou como mulheres deveriam se portar para serem consideradas adequadas: discretas, suaves, contidas. Historiadores lembram que, até o século XIX, mulheres podiam ser socialmente punidas por falar alto, rir demais ou demonstrar opinião firme em público. No fundo, só transferimos esse script para o século XXI, com roupagensatualizadas: “profissional”, “elegante”, “comportada”. Os códigos mudaram; a lógica não.
O sociólogo Pierre Bourdieu chama isso de violência simbólica, aquilo que nos fere sem que percebamos, porque aprendemos a concordar com a ferida. Por isso tanta gente ainda acha natural dar utensílios domésticos como presente de Dia das Mães, perguntar “o que vai ter para jantar?” à mulher, independentemente de quem mora na casa e até mesmo esperar que ela organize a reunião, sirva o café, cuide dos detalhes.
Isso continua acontecendo em diferentes aspectos. É o que muitos pesquisadores chamam de Office Housework, aquelas tarefas invisíveis que caem sobre mulheres independentemente do cargo, sabotando tempo, foco e promoção.
E talvez esse seja o ponto mais sensível. Mulheres também reproduzem machismo. Não por má intenção, mas porque aprenderam os mesmos códigos. Somos rápidas em julgar a saia da outra, o salto da outra, o tom de voz da outra. E somos rápidas em não nos permitir aquilo que, em um homem, seria visto como absolutamente banal.
Penso nisso como uma espécie de poeira fina. Você convive tanto com ela que deixa de notar, até o dia em que respira fundo e arde. É por isso que acredito nas miniousadias. Pequenas escolhas que parecem irrelevantes, mas que funcionam como rachaduras na parede cultural que nos cerca. Colocar um acessório colorido, escolher o próprio vinho, dizer um “não” honesto, ir de tênis a uma reunião. São gestos simples, mas que acionam um lembrete interno poderoso: “Eu existo antes do olhar dos outros”.
E, sim, exige prática. Porque ousadia não nasce pronta, ela se aprende.
O primeiro passo não é transformar o mundo, basta se notar. Se algo te incomoda, pause, observe, nomeie. Autoconsciência é a primeira forma de coragem. O segundo passo é experimentar pequenas ousadias, não para desafiar ninguém, mas para caber inteira dentro da própria vida. E o terceiro é talvez o mais transformador: quando você se permite, outras mulheres também se permitem. O contrário também é verdade.
Cada vez que uma se encolhe, todas diminuímos um pouco. Cada vez que uma se expande, todas respiramos melhor.
O machismo invisível existe sim, mas ele só continua invisível enquanto não há luz. E nós, cada uma de nós, somos responsáveis exatamente por fazer desaparecer o que nunca deveria ter estado ali.
Por Branca Barão, palestrante, autora best-seller e referência em felicidade prática, propósito e autenticidade feminina. Atua há mais de 25 anos no desenvolvimento humano, traduzindo temas profundos em uma linguagem simples, prática e conectada à vida real. Ao longo dessa trajetória, já soma mais de 20 mil horas de palco e impactou cerca de 400 mil pessoas em palestras, treinamentos e eventos corporativos no Brasil e Estados Unidos. Seu trabalho nasce do princípio central de que valores importam.