Durante muito tempo, achei que minha história precisava permanecer em silêncio. Existem dores que a gente aprende a esconder para sobreviver. E eu sobrevivi assim por muitos anos: tentando seguir em frente sem olhar para trás, fingindo que certas feridas não existiam. Hoje tenho 26 anos, sou mãe de uma adolescente de 13. Mas antes disso, fui uma criança grávida. Me tornei mãe aos 12 anos de idade. E talvez uma das coisas que mais me machuque até hoje seja lembrar que, durante toda a minha gestação, quase ninguém enxergou que eu era apenas uma criança precisando de ajuda. Eu ia aos postos de saúde fazer pré-natal, sentava nas salas de espera e ouvia comentários sobre parto, dor e julgamentos. Ouvi que eu precisava “sentir a dor de um parto para aprender”. Ouvi que minha vida havia acabado.
Mas ninguém perguntava se eu estava com medo, ninguém perguntava se eu estava segura, ninguém perguntava se eu precisava de ajuda, ninguém questionava por que uma criança estava grávida, ninguém perguntou o que tinha acontecido comigo. Às vezes penso em quantas meninas continuam passando pelas mesmas situações em silêncio enquanto o mundo segue normalmente ao redor delas. Minha história traz à tona uma questão extremamente urgente e ainda pouco discutida no Brasil: a gravidez na infância, muitas vezes ligada à violência, vulnerabilidade e falta de amparo.
Falar sobre isso é dar visibilidade a uma realidade silenciada e que precisa ser enfrentada com mais responsabilidade, empatia e conscientização. Cresci em um ambiente marcado por abusos familiares, violência física e psicológica, rejeição, negligência e fome. Eu não conhecia o amor. Durante muito tempo, achei que minha vida já estava definida pela dor que vivi tão cedo.
Eu e minha filha também vivemos situações difíceis dentro de ambientes familiares marcados por violência, medo e abusos. É triste perceber como tantas crianças continuam sendo silenciadas dentro dos próprios lares, sem proteção e sem acolhimento. Por muito tempo carreguei medo, culpa e silêncio. Mas hoje entendo que falar sobre essas vivências também é uma forma de conscientização, proteção e quebra de ciclos. Sobreviver também pode ser uma forma de resistência. Aprendi a transformar a dor e a raiva em combustível para continuar.
Aos 17 anos, fui expulsa de casa pelos meus próprios pais levando minha filha nos braços e algumas roupas dentro de sacos de lixo. Desde então, fomos apenas nós duas tentando sobreviver da forma que dava. Trabalhei como faxineira, distribuí panfletos, trabalhei em telemarketing, como ASB, vendi minhas próprias roupas em bazares e feiras. Passei com minha filha por momentos extremamente difíceis, inclusive de não ter o que comer.
Mesmo assim, existia uma coisa dentro de mim que nunca desapareceu completamente: o sonho de ser médica. Por muito tempo achei que esse sonho não caberia na minha realidade. Como uma menina que cresceu em meio à violência, aos abusos, sem estrutura familiar, sem apoio, sem referências, com ensino precário, sozinha no mundo com uma filha, poderia sonhar em se tornar médica?
Recentemente fui aprovada em dois vestibulares de Medicina. Hoje entendo que meu maior desejo não é apenas me tornar médica. É me tornar a médica que eu gostaria de ter encontrado quando era apenas uma criança grávida precisando de ajuda, alguém capaz de olhar com humanidade, escutar sem julgamento e acolher com empatia. Eu sei como é entrar em um lugar pedindo socorro em silêncio e não ser enxergada.
Hoje sou a mãe que eu gostaria de ter tido. Todos os dias tento oferecer à minha filha a vida, o cuidado, a proteção e o acolhimento que eu não tive quando era criança. Quero que ela tenha orgulho de mim. Quero que ela cresça tendo referências diferentes das que eu tive.
Durante muito tempo eu não soube o que era amor. Cresci sendo ensinada que medo, violência e abandono faziam parte da vida. Mas, dentro de mim, sempre existiu algo que se recusava a aceitar aquela realidade como destino. Minha filha me ensinou que o amor também pode ser reconstrução. Hoje eu conheço o amor. E, pela primeira vez na vida, também conheço a esperança. E talvez essa seja a minha maior vitória: não ter permitido que toda a dor que vivi me impedisse de continuar acreditando na possibilidade de um futuro diferente, de não deixar que minha dor respingasse na minha filha e em outras pessoas e de não repetir o mesmo ciclo.
Desde que tornei minha história pública, comecei a receber mensagens de inúmeras mulheres e meninas compartilhando vivências parecidas. E isso me fez perceber algo muito importante: existem muitas “Sabrinas” invisíveis no Brasil. Meninas que crescem em silêncio, sendo violentadas, desamparadas e abandonadas, que sobrevivem sem acolhimento, que aprendem cedo demais sobre dor. Meninas que a sociedade muitas vezes escolhe não enxergar.
E a verdade é que não foi apenas a sociedade que não me enxergou. Muitos órgãos públicos também não enxergaram uma criança grávida e sozinha, mesmo em 2012, período em que já existiam leis e mecanismos de proteção para situações como essa. Hoje, quero transformar essa dor em algo que possa ajudar outras meninas que vivem situações parecidas, quero levar esperança.
Embora muitas pessoas falem sobre esse tema, ainda são poucas as vezes em que quem viveu essa realidade é verdadeiramente ouvido. Poucas vezes essa pauta é aprofundada a partir da voz de quem sobreviveu a ela e está tentando reconstruir a própria vida. São poucas as crianças que passam por tudo isso e ainda conseguem seguir em frente tentando construir um futuro melhor. Poucas ainda conseguem manter alguma esperança.
Por isso, eu não quero que minha história seja vista apenas como uma história de superação individual. Quero que ela sirva para gerar reflexão e conscientização. Quero que os órgãos competentes olhem com mais atenção para essa realidade, porque ela continua acontecendo diariamente com milhares de meninas no Brasil. Precisamos falar sobre proteção à infância, sobre violência, abusos no ambiente familiar, negligência, abandono familiar, maternidade precoce, omissão, acolhimento, escuta, sobre quantas crianças ainda estão sendo silenciadas enquanto tentam sobreviver.
Tenho o desejo de ampliar esse debate e chamar atenção para a importância da proteção à infância, do acolhimento e de políticas de prevenção mais efetivas. Além disso, também estou tentando iniciar meus estudos: fui aprovada em Medicina e sigo buscando oportunidades para iniciar essa caminhada. Quero transformar tudo o que vivi em algo capaz de acolher, proteger e mudar a vida de outras pessoas. Quero fazer diferença neste mundo de alguma forma.
Também quero que minha trajetória possa levar esperança para outras pessoas que sentem que suas dores definiram seus destinos. E hoje, mesmo carregando cicatrizes profundas, continuo tentando construir um futuro diferente para mim e para minha filha. Talvez seja isso que mais desejo transmitir às mulheres através da minha história: que nenhuma dor deve ter o poder de apagar completamente a nossa possibilidade de sonhar e de mudar a nossa realidade.
Também quero deixar meu agradecimento à atriz e influenciadora Carolina Loback, que foi uma das primeiras pessoas a me dar voz e a enxergar minha história com humanidade e sensibilidade. Foi através da sua leitura, da sua escuta e da sua empatia que muitas pessoas passaram a conhecer minha trajetória. Jamais esquecerei isso.
E, se eu conseguir ingressar na Medicina e um dia me formar, o primeiro convite da minha formatura será dela. Porque pessoas que dão voz, acreditam, acolhem e ajudam outras a recomeçar merecem fazer parte das suas maiores conquistas.
Por Sabrina Guedes, é mãe da Geovanna de 13 anos, auxiliar de saúde bucal em Juiz de Fora (MG) e busca ingressar no curso de medicina.
(@sabrinaguedes_p).