O jeito não humano de ser mulher

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criação de inteligência artificial

Outro dia ouvi uma música que me emocionou. Gostei da voz, da melancolia, daquela atmosfera que parecia carregar uma história. Fui procurar quem cantava, queria saber mais sobre a artista, sua trajetória, seus discos, suas influências. E então veio a surpresa: ela não existia.

A cantora se chama Layah Noir, ou melhor, não se chama. Porque Layah Noir é uma criação de inteligência artificial. O rosto foi criado por algoritmos, a voz foi criada por algoritmos. As músicas, a estética, a personalidade e até a emoção foram produzidas por sistemas capazes de aprender aquilo que mais nos toca. A emoção que senti era verdadeira. A artista, não, e talvez seja justamente isso que torne essa experiência tão perturbadora.

Durante anos discutimos se a inteligência artificial seria capaz de realizar tarefas humanas. Agora estamos diante de uma questão mais complexa. Ela consegue criar algo que nos emociona? Ao que tudo indica, sim. Mas o que exatamente está acontecendo quando nos emocionamos com alguém que nunca existiu?

Quando ouvimos uma canção, raramente ouvimos apenas música, ouvimos histórias, ouvimos vidas, ouvimos experiências que deixaram marcas em quem canta. Quando pensamos em Chico Buarque, por exemplo, não pensamos apenas em uma voz ou em uma letra bem construída, pensamos em uma trajetória, em décadas de criação, em um homem atravessado pelo seu tempo, pelas suas escolhas, pelas suas contradições e pelas experiências que transformaram sua obra.

A arte sempre carregou algo que vai além do resultado final, carrega a presença humana. Por isso a existência dessas artistas virtuais provoca tanto desconforto. A música está lá. A voz também. A emoção parece existir. Mas a vida desapareceu da equação.

Pesquisando mais sobre o tema, encontrei uma reflexão da influenciadora argentina Lenny Cáceres que amplia ainda mais essa discussão. Ela questiona por que tantas artistas criadas por inteligência artificial são mulheres. E mais do que isso: por que frequentemente aparecem como mulheres negras, de voz potente, melancólica, associadas ao blues, ao soul e a narrativas de dor e superação.

A pergunta é importante porque os algoritmos não criam sozinhos, eles aprendem conosco, observando nossos hábitos, consumos, desejos e também nossos estereótipos. Em outras palavras, a inteligência artificial devolve para nós uma versão ampliada daquilo que a própria sociedade valoriza e consome.

Talvez por isso tantas dessas artistas virtuais pareçam ter sido construídas para emocionar. São mulheres belas, talentosas, misteriosas, intensas, sem rugas, sem conflitos públicos, sem opiniões incômodas, sem envelhecimento, sem reivindicações e sem história própria. Mulheres desenhadas para despertar sentimentos, mas sem a complexidade que acompanha qualquer ser humano real.

E aqui talvez esteja uma das questões mais inquietantes desse fenômeno, durante séculos as mulheres foram pressionadas a corresponder a expectativas quase impossíveis. Agora a tecnologia parece oferecer uma versão perfeita desse ideal. Uma mulher que existe apenas para agradar, emocionar e performar. Não deixa de ser simbólico que, mesmo em uma era de avanços tecnológicos impressionantes, continuemos reproduzindo velhos modelos de feminilidade.

A indústria cultural sempre vendeu emoção, mas talvez estejamos entrando em uma fase em que ela pode fabricar emoção sem precisar de artistas, biografias ou experiências reais. E isso muda profundamente nossa relação com a arte, porque o blues nasceu da experiência humana, o soul nasceu da experiência humana, a literatura, o cinema, a música e a pintura nasceram da necessidade humana de contar histórias sobre si mesma. Quando retiramos a experiência e mantemos apenas a emoção produzida sob medida, o que sobra?

Talvez a inteligência artificial não esteja apenas transformando a maneira como produzimos conteúdo, talvez ela esteja nos obrigando a refletir sobre aquilo que torna uma obra significativa. Afinal, o que nos toca é apenas o resultado ou também a história de quem o criou?

Recentemente vimos milhares de pessoas compartilharem uma música atribuída a Luísa Sonza que nunca foi gravada por ela, a voz parecia dela, a interpretação parecia dela, emoção parecia dela, mas nada era dela. E isso mostra que a tecnologia já ultrapassou a capacidade de imitar rostos ou vozes, ela começa a imitar presenças. A pergunta, portanto, não é mais se a inteligência artificial consegue criar música, ela consegue, a pergunta é o que acontece conosco quando começamos a estabelecer vínculos emocionais com pessoas que nunca existiram.

Porque talvez a grande discussão do nosso tempo não seja tecnológica, talvez seja profundamente humana. Num mundo em que até os sentimentos podem ser reproduzidos por algoritmos, talvez a questão mais urgente seja entender o que ainda reconhecemos como verdade, e, principalmente, o que ainda reconhecemos como humano.

Por Fátima Torri

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